Estiagem prejudicou severamente navegação na região Amazônica em 2023 (Arquivo/Foto: Agência Brasil)
Após experiência do último ano, empresas ajustaram ou desenvolveram novas soluções, que incluem estruturas flutuantes temporárias para transbordo de cargas de navios para barcaças em áreas estratégicas
A estiagem de 2023 na região Norte foi considerada pelo setor de navegação como uma das mais prolongadas e intensas que se tem registro no Brasil. As condições levaram à paralisação da atividade, impacto que nunca havia acontecido antes, gerando gargalos em diversos elos da cadeia logística. Com esse cenário próximo de se repetir em 2024, empresas brasileiras de navegação vêm cobrando governo e autoridades por medidas efetivas para evitar novos problemas. Paralelamente, as EBNs estão desenvolvendo novas estratégias comerciais ou aperfeiçoando soluções logísticas adotadas na crise anterior para não deixar os embarcadores desassistidos.
A Mercosul Line, do grupo CMA CGM, afirma estar preparada em caso de nova seca em 2024, com soluções ágeis, como o transbordo de cargas de navios para barcaças fluviais em Itacoatiara (AM) por meio de cais flutuante temporário. Também podem ser utilizadas barcaças fluviais de Manaus (AM) a Belém (PA), além de conexão por caminhão de Belém ao Porto do Pecém (CE) e transbordo para navios. A Mercosul Line oferece serviços regulares semanais de/para Manaus, cidade que é servida por um serviço de cabotagem que conecta a outros portos brasileiros, oferecendo conexões de/para todo o mundo.
A Mercosul Line destacou ter sido, no período crítico do ano passado, a empresa de cabotagem que conseguiu escalar os portos da região por mais tempo, sendo a última a parar e a primeira a retomar as operações de serviços regulares em 2023, graças à sua frota otimizada. “Após a grave e histórica seca que impediu a chegada de navios ao porto de Manaus, impactando as operações de exportação, importação e cabotagem no Norte do Brasil, o CMA CGM Aristote atracou na Amazônia, simbolizando os esforços do grupo para restabelecer o comércio, contribuindo para a Zona Franca de Manaus e para a economia brasileira”, manifestou a empresa em nota.
A Norcoast, que iniciou operações na costa brasileira no início de 2024, possui escalas semanais no Porto de Manaus, com movimentações superiores a 1.000 contêineres por escala. A empresa acredita que, independente do tempo que está operando, as dificuldades e desafios são os mesmos das empresas estabelecidas há mais tempo. A avaliação é que a estiagem na região norte trará, como no ano passado, um elemento adicional de complexidade, caso as medidas do governo com a infraestrutura não tenham a eficácia esperada.
“Todos os modelos climáticos que tivemos acesso mostram que a estiagem está relacionada ao aquecimento global, diferentemente ao que se acreditava que era um fenômeno relacionado ao El Niño”, comentou o CEO da Norcoast, Gustavo Paschoa. Ele acrescentou que esta mudança faz acreditar que estiagens mais severas na região norte serão uma constante, não somente para este ano, mas também para os anos subsequentes.
Paschoa disse que a Norcoast apoia as medidas do governo federal para que a dragagem licitada tenha efetividade e que haja condições de navegar até a região de Manaus sem restrições relacionadas ao período de estiagem. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e o governo do Amazonas, as expectativas são positivas quanto ao processo de dragagem na foz do Rio Madeira e na localidade do Tabocal, que são as duas áreas críticas de acesso da navegação até Manaus.
Ele explicou que, como contingenciamento, a Norcoast vem trabalhando junto à parceira Superterminais, para ter a possibilidade de montagem de um píer flutuante na região antes desses dois pontos de restrição, para uma operação de transbordo do navio para balsas. A medida tem como objetivo uma preparação para dar continuidade à operação da EBN, de forma a atender a região de Manaus, tanto sua indústria, como para os produtos de consumo para a sociedade em geral.
A Log-In observa que, embora sazonal, a estiagem do rio sempre representou uma preocupação para operadores logísticos, indústrias e a população em geral. No entanto, o ano de 2023 foi considerado diferente, pois o desafio enfrentado foi ainda maior. “A estiagem, além de mais prolongada, foi mais intensa do que nos anos anteriores, levando à paralisação da navegação de navios de maior porte, algo que nunca havia acontecido antes”, lembrou o vice-presidente de navegação da Log-In Logística Integrada, Marcus Voloch.
Desde o início do ano, a Log-In tem trabalhado, em conjunto com parceiros e autoridades, na busca de soluções, considerando diversos cenários. A principal alternativa será a construção do píer temporário em Itacoatiara, onde o excesso de carga será transbordado para embarcações menores, seguindo o trânsito para Manaus. Outra opção, a depender de alguns gatilhos, é o acionamento de planos complementares, como o uso de balsas e pequenos navios via transbordo, o que poderá ocorrer em Vila do Conde (PA), Santarém (PA) ou em Macapá (AP). A Log-In também desenvolveu um produto rodo-fluvial via Tecmar, empresa de transporte rodoviário do grupo.
Na estiagem de 2023, a Log-In conseguiu implementar soluções em tempo hábil para continuidade dos serviços, desenvolvendo alternativas juntamente com as empresas do grupo, Tecmar Transporte & Logística e a Oliva Pinto. Voloch disse que a empresa foi pioneira nas soluções de escoamento através de balsas, assegurando o escoamento da produção e abastecimento da população e indústrias locais, até que a navegação fosse restabelecida. “Apesar de todo o esforço colocado em prática, praticamente todo o transbordo de carga foi feito num único porto, Vila do Conde, que não suportou o abrupto incremento de volume, ocasionando rupturas dolorosas”, lamentou.
Voloch salientou que a presença da Log-In na região norte é significativa e estratégica para suas operações logísticas. No último ano, como parte do plano de expansão, a empresa aumentou a capacidade marítima na conexão da região aos demais portos brasileiros. Atualmente, atende a região com dois serviços semanais regulares, com navios de 3.000 TEUs de capacidade nominal.
Além da cabotagem, a Log-In possui uma operação de transporte terrestre e armazenagem, através da Tecmar Norte, empresa do grupo com operações em Manaus e Roraima. Em Manaus, a infraestrutura abrange 80 mil metros quadrados (m²) e capacidade para armazenar 7.840 TEUs, além de um armazém de 12 mil m². Ambas as filiais integram os modais rodoviários (fracionado e lotação), realizam operações de cabotagem a partir de Manaus e oferecem serviços de transporte de contêineres.
A A.P. Moller-Maersk informou à Portos e Navios que acompanha constantemente a situação dos rios da região do Amazonas. Com base em informações registradas pelas réguas da Agência Nacional de Águas (ANA) e em análises preditivas de dados da região, a empresa identificou fortes indícios de que haverá novamente restrições na navegabilidade durante o período de seca, entre os meses de setembro de 2024 e início de 2025.
“Seguindo com propósito de oferecer as melhores soluções logísticas e de apoiar indústrias, produtores e a população nos locais onde operamos, minimizando as chances de um possível desabastecimento em 2024, trabalhamos intensamente, junto aos fornecedores locais de infraestrutura logística e autoridades competentes, para buscar alternativas que reduzissem os impactos durante esse período”, destacou a Maersk.
Em nota, a Maersk, que opera na cabotagem brasileira por meio de sua subsidiária Aliança, relatou que vem atuando próximo ao governo federal para que a dragagem dos rios da região amazônica seja viabilizada o quanto antes, contribuindo para melhorar a navegabilidade nos rios da região. No entanto, as previsões para 2024 apontam que, mesmo com a realização dessa intervenção, haverá severas restrições na passagem dos navios. O gráfico (foto) mostra a evolução da profudidade do Rio Amazonas, em Manaus.
A Maersk tomou a decisão de comunicar a situação aos clientes, com a devida antecedência, solicitando o adiantamento, o quanto fosse possível, do transporte de suas cargas para/da região. Diferente de outros anos, em que a taxa emergencial e temporária Low Water Surcharge (LWS) era cobrada isoladamente, a empresa disponibilizou em 2024, pela primeira vez, uma solução logística e integrada de serviços, já incluída no valor cobrado, assumindo a viabilidade da solução de píer provisório e flutuante.
De acordo com a Maersk, a solução foi resultado da busca em atender às necessidades dos clientes em condições adversas e contempla o transporte via píer provisório em Itacoatiara, com o transbordo de cargas dos navios para balsas até Manaus e, da mesma forma, no sentido contrário. O pacote abrange ainda a possibilidade de transbordo e armazenamento de carga, caso necessário, nos terminais de Pecém (CE), Vila do Conde (PA) ou nos demais portos de conexão, no Brasil ou no exterior. Segundo o armador, no valor adicional de serviço único por contêiner, durante todo o período de seca, já estão inclusos os serviços, taxas e seguro adicional de carga. Também é considerado o fator de limitação de capacidade dos navios.
A Maersk frisou que a incidência desse valor cessará tão logo as condições de navegação retornem ao normal. O grupo ressaltou que o início da vigência dependerá do local de origem ou destino da carga. Para as cargas internacionais, o período de início leva em consideração a data planejada para a chegada/saída da carga do Brasil. “Reiteramos o nosso compromisso com a sociedade amazonense, seguiremos atentos às mudanças diárias na região e em constante contato com os nossos clientes e com as autoridades competentes, com o objetivo de minimizar os impactos dessa situação à economia e à população local”, afirmou a empresa.
Paschoa, da Norcoast, considera que a estiagem em si não trará nenhum custo adicional caso se consiga manter, por meio de dragagem, uma profundidade mínima para a navegação no Rio Amazonas. O problema, porém, surge se a profundidade limitar a capacidade dos navios, ou mesmo a solução de contingenciamento, podendo gerar custos adicionais para acomodar o manuseio extra do contêiner, a montagem da infraestrutura necessária à operação, e o uso das balsas para dar continuidade às operações no Porto de Manaus.
O CEO da Norcoast disse ainda que o planejamento operacional muda bastante, uma vez que a empresa precisa redesenhar escalas, tempos de atendimento de janelas, além de entender como os outros portos do Nordeste, por exemplo, serão impactados com o aumento das cargas, possivelmente, redirecionadas a eles. “Isso traz uma complexidade ainda maior, vista no ano passado com terminais congestionados, falta de caminhos para fluir as cargas, etc (…). Isso tudo impacta nosso planejamento operacional e estamos nos preparando da melhor maneira possível”, afirmou.
Dados da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) relativos ao segundo trimestre de 2024 indicam que a indústria da região se prepara para uma nova seca no Amazonas, considerando que houve crescimento do número de contêineres embarcados em Manaus sem o mesmo crescimento no desembarque. O diretor executivo da Abac, Luis Fernando Resano, explicou que, analisando separadamente os números de Manaus, é possível perceber que a estiagem na região norte ainda não está afetando as EBNs, porém há indícios de que haverá uma seca comparável à vivenciada em 2023.
A Abac projeta que, já a partir de agosto, as empresas podem começar a sentir o efeito dessa condição climática. “Percebemos um aumento das cargas embarcadas, que não são acompanhadas pelo mesmo volume desembarcado, o que pressupõe que a Zona Franca de Manaus está se preparando para a seca que está por vir”, analisou Resano.
Fonte: Revista Portos e Navios
